Muçum se prepara para viver mais uma edição da Paixão de Cristo com encenação que une fé, arte e comunidade
Apresentação a céu aberto mobiliza dezenas de voluntários e reforça tradição consolidada há décadas no Vale do Taquari
A cidade de Muçum se aproxima de um dos momentos mais marcantes do seu calendário cultural e religioso. Na sexta-feira Santa e Sábado Santo, 3 e 4 de abril, às 20h, a Praça da Matriz volta a se transformar em palco para a encenação da Paixão de Cristo, espetáculo que há décadas mobiliza a comunidade local e atrai público de diferentes municípios da região e do estado.
Com o tema “Ele fez morada em nós”, a edição de 2026 propõe um olhar voltado à presença de Cristo na vida das pessoas, convidando o público a uma reflexão que ultrapassa a narrativa bíblica e dialoga diretamente com a vivência cotidiana da fé. A proposta conduz toda a construção do espetáculo, desde o roteiro até a interpretação dos personagens, buscando aproximar a história encenada da realidade de quem acompanha.
Uma tradição construída coletivamente
A encenação da Paixão de Cristo de Muçum se consolidou ao longo dos anos como um projeto essencialmente comunitário. Nesta edição, cerca de 70 pessoas participam diretamente da realização, entre atores, equipe técnica e voluntários. Em sua maioria, são moradores da própria cidade ou da região, que conciliam o trabalho, a rotina pessoal e o envolvimento com o evento.
Os ensaios iniciaram ainda em fevereiro e entram agora na fase final, com ajustes de marcação de cena, iluminação, sonorização e organização dos espaços. Mais do que uma preparação técnica, esse processo também fortalece o sentimento de pertencimento e identidade cultural entre os participantes.
O diretor da encenação e presidente da Associação Muçunense de Artes (AMA), idealizadora do evento, destaca a dimensão coletiva do projeto. “A Paixão de Cristo não é construída por uma ou duas pessoas. Ela é resultado de muitas mãos, de gente que acredita, que doa seu tempo e que entende a importância de manter essa tradição viva dentro da nossa comunidade e isso faz tão bem pra gente e, principalmente para este povo, que ainda se recupera dos últimos acontecimentos climáticos. É uma forma que a gente, como entidade, tem para contribuir nesta reconstrução”, afirma.
Segundo Moriggi, o espetáculo tem duração aproximada de 1h45min. A recomendação é que o público chegue com antecedência para assegurar um bom lugar na Rua Coberta, espaço recentemente revitalizado que oferece proteção contra o sereno e eventuais mudanças nas condições do tempo durante a apresentação.
Estrutura e narrativa ganham força a céu aberto
O espetáculo é montado em espaço aberto, utilizando a própria Praça da Matriz e o seu entorno como cenário natural. A ambientação é reforçada por iluminação cênica, sistema de som e elementos cenográficos que ajudam a dar ritmo e intensidade às cenas.
Ao longo da apresentação, o público acompanha momentos centrais da trajetória de Jesus Cristo, como a vida pública de Jesus, a Última Ceia, a traição, o julgamento, a crucificação e a ressurreição, além de outros episódios, inseridos na representação teatral. A proximidade entre atores e espectadores é um dos diferenciais da encenação, criando uma experiência mais imersiva e emocional.
Para Ismael Girardi, coordenador de Cultura do município, que interpreta Jesus, o desafio vai além da atuação. “Assumir o papel de Jesus nessa encenação é algo que carrega um significado muito profundo pra mim. É uma experiência que vai além do palco, porque nos convida a sentir e compreender uma história que atravessa gerações e toca tantas pessoas de formas diferentes. Durante os ensaios, a gente percebe que não se trata apenas de representar, mas de viver cada momento com verdade. É um processo que exige entrega, sensibilidade e respeito por tudo o que essa trajetória simboliza. Agora, com a apresentação se aproximando, cresce a expectativa e também a responsabilidade de fazer jus a essa mensagem tão forte. A expectativa é que o público consiga se envolver, se emocionar e, de alguma forma, levar consigo um pouco dessa reflexão”, disse.
O olhar de Maria e a força da emoção
Outro ponto de destaque é a interpretação de Maria, mãe de Jesus, que carrega uma das dimensões mais sensíveis da encenação. Para a atriz, o papel exige entrega emocional e conexão com a história. “Interpretar Maria, mãe de Jesus por tanto tempo é muito especial pra mim. Com o tempo, deixou de ser só um papel e virou algo que eu sinto de verdade. Em cada apresentação, eu me emociono, porque Maria representa amor, fé e força. E isso toca muito o coração. Mesmo depois de tanto tempo, a emoção segue a mesma. É como viver tudo de novo, sempre com muito respeito e carinho”, destaca Fabiana Todescatto Bagnara, responsável em dar vida à mãe de Jesus na encenação.
Tema propõe reflexão sobre a presença de Cristo
Diferente de abordagens mais distantes, o tema deste ano busca aproximar a mensagem do cotidiano das pessoas. “Ele fez morada em nós” propõe uma reflexão direta sobre a presença de Cristo nas atitudes, nas relações e nas escolhas diárias.
A encenação, nesse sentido, não se limita à representação histórica dos acontecimentos, mas se apresenta como um convite à introspecção. A ideia é que cada espectador possa se reconhecer em algum momento da narrativa. “Mesmo seguindo o formato tradicional, com base nos evangelhos, as cenas foram preparadas para despertar no público este sentido de presença real de Jesus”, revela o diretor.
Há personagens que permanecem na memória não apenas do público, mas também de quem as interpreta. Para Julia Canepelle, que integra o elenco há 17 anos, viver Maria Madalena na encenação da Paixão de Cristo é mais do que atuar: é uma experiência que transforma, emociona e fortalece a fé e o vínculo com a comunidade. “Interpretar Maria Madalena há tantos anos é uma experiência que ultrapassa o palco e toca profundamente a minha fé e a minha história. A cada edição sinto como se fosse a primeira vez: o coração se renova, a emoção transborda e o compromisso se fortalece. Viver esse papel por tantos anos é uma honra indescritível, um chamado que me emociona e me faz crescer como pessoa, artista e ser humano. Sou grata por fazer parte deste espetáculo tão significativo para a nossa comunidade e por dar vida, ano após ano, a uma personagem tão marcante da história de Cristo”, destaca.
Mais oportunidades para o público acompanhar a apresentação
Atendendo a uma demanda recorrente do público, a encenação da Paixão de Cristo de Muçum terá, neste ano, duas apresentações. A ampliação busca facilitar o acesso de visitantes, especialmente diante da coincidência de diversos eventos religiosos realizados no mesmo dia (sexta-feira Santa) em diferentes municípios, o que, até então, limitava a presença de público de outras cidades.
O roteiro, segundo o diretor da encenação, será o mesmo nas duas noites, garantindo a unidade da narrativa e da proposta do espetáculo. No entanto, estão previstas adaptações pontuais para cada apresentação: na sexta-feira, a condução será mais introspectiva, em sintonia com o caráter de reflexão da data, enquanto no sábado a encenação incorpora elementos que dialogam com a celebração da ressurreição de Jesus Cristo na tradição cristã.
Apoio institucional e valorização cultural
A realização é da Associação Muçunense de Artes (AMA), com apoio da Prefeitura de Muçum e de parceiros locais. Para a administração municipal, o evento representa mais do que uma manifestação religiosa. O prefeito do município, Mateus Giovanoni Trojan, que também integra o elenco como um dos membros do Sinédrio, ressalta a importância da encenação para a cidade. “A Paixão de Cristo é um patrimônio artístico do nosso município. Temos muito orgulho de ver o quanto o evento cresceu e continua crescendo, e também, da importância dos investimentos públicos municipais para viabilizar o espetáculo na grandeza prevista, como principal financiador. Mas também precisamos exaltar a atuação da AMA, organizadora da encenação há tantos anos, e das dezenas de atores que, voluntariamente, se dedicam muito para interpretar de forma incrível cada personagem e cada capítulo dessa história”, ressalta.
A participação da Igreja também é fundamental na construção do sentido do espetáculo. O pároco da Paróquia Nossa Senhora da Purificação, padre Paulo Krindges, reforça o caráter espiritual do evento. “As encenações bíblicas não têm como objetivo, apenas ser um espetáculo, mas principalmente proporcionar um momento de Reflexão para todos, e ajudar tanto quem apresenta quanto quem assiste, a crescer na sua Fé, fazendo deste momento, um momento de Oração. Deste modo, os sofrimentos de Cristo servem como alerta, para que haja menos sofrimentos entre as pessoas, e também para que a Ressurreição de Cristo sirva de modelo para a construção de um mundo melhor, mais justo e com mais pessoas felizes”, destaca.
Impacto regional e expectativa de público
Além do aspecto religioso, a Paixão de Cristo de Muçum também se destaca como um importante evento cultural da região. A encenação movimenta a cidade, envolve diferentes setores da comunidade e contribui para a valorização das manifestações artísticas locais.
A expectativa é de que cerca de oito mil pessoas assistam a encenação nos dois dias de apresentação, reunindo moradores e visitantes do Vale do Taquari e de outras regiões. A entrada gratuita reforça o caráter acessível e comunitário da iniciativa.
Serviço – PAIXÃO DE CRISTO DE MUÇUM 2026
Local: Praça da Matriz – Muçum
Data: 3 e 4 de abril (sexta-feira Santa e sábado Santo)
Horário: 20h
Duração: aproximadamente 1h45min
Entrada: gratuita (trazer cadeiras para melhor acomodação).
Observação: haverá distribuição de erva-mate e água quente para o chimarrão no local.

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