Municípios anunciam frente conjunta contra novos eventos climáticos, mas deixam de fora cidades mais atingidas pelas enchentes
Prefeituras da Região Metropolitana de Porto Alegre e da parte baixa do Vale do Taquari articulam a assinatura conjunta de decretos preventivos de alerta climático diante da possibilidade de novos impactos relacionados ao fenômeno El Niño nos próximos meses. A iniciativa pretende antecipar medidas de resposta e pressionar governos estadual e federal por mais agilidade na liberação de recursos. No entanto, um aspecto da mobilização chama a atenção: a ausência dos municípios da parte alta do Vale do Taquari, justamente a região que sofreu algumas das maiores destruições durante as enchentes de 2023 e 2024.
O movimento está sendo conduzido pela Associação dos Municípios da Região Metropolitana de Porto Alegre (Granpal) e pela Associação dos Municípios do Vale do Taquari (Amvat), após reunião realizada em Estrela. Prefeitos das duas regiões discutiram estratégias conjuntas para prevenção, resposta e reconstrução diante de futuros eventos extremos.
Entre os objetivos da medida estão a antecipação da mobilização de equipes de emergência, a agilização de contratações preparatórias e a possibilidade de destinação prévia de recursos municipais para ações de prevenção. Além disso, os gestores defendem que uma manifestação coletiva fortaleça a reivindicação por recursos dos fundos de reconstrução.
Embora a proposta tenha sido apresentada como uma iniciativa regional, a ausência de municípios localizados na parte alta da bacia do Taquari levanta questionamentos. Cidades como Muçum, Roca Sales, Encantado, Relvado e outras localidades da região foram palco de algumas das cenas mais dramáticas das enchentes que devastaram o Rio Grande do Sul. Em diversos casos, houve destruição de bairros inteiros, perda de moradias, interrupção de serviços públicos e impactos econômicos que ainda não foram totalmente superados.
Diante desse histórico recente, surge a pergunta: por que justamente as cidades que enfrentaram os efeitos mais severos das enchentes não participaram da construção desse movimento ou sequer foram incluídas no anúncio do ato coletivo?
A questão ganha relevância porque a experiência acumulada por esses municípios durante as tragédias climáticas poderia contribuir diretamente para a formulação de estratégias de prevenção e resposta. São cidades que vivenciaram na prática os desafios da evacuação de comunidades, do acolhimento de desabrigados, da reconstrução de infraestrutura e da retomada econômica após os desastres.
Os defensores da iniciativa argumentam que a integração regional é fundamental para enfrentar eventos climáticos cada vez mais frequentes e intensos. O presidente da Granpal e prefeito de Alvorada, Douglas Martello, afirmou que a troca de experiências e a construção conjunta de soluções são essenciais para proteger a população e preparar os municípios para futuros desafios. A prefeita de Estrela, Carine Schwingel, também ressaltou que os rios não respeitam limites geográficos e que a atuação integrada é indispensável.
Apesar disso, permanece a percepção de que uma discussão sobre prevenção climática no Vale do Taquari dificilmente estará completa sem a participação efetiva dos municípios que mais sofreram com as enchentes históricas dos últimos anos.
Enquanto a data do ato coletivo ainda não foi definida, a expectativa agora é saber se a mobilização será ampliada para incluir outras regiões da bacia do Taquari ou se seguirá restrita aos grupos que participaram da articulação inicial. Para muitas comunidades que ainda convivem com as marcas da destruição, a ausência na mesa de discussão pode soar como uma oportunidade perdida de colocar em evidência experiências e necessidades que continuam presentes no processo de reconstrução.
Foto: Divulgação

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