Uso de cigarros eletrônicos amplia riscos à saúde e desafia percepção de menor dano
A crescente popularização do cigarro eletrônico no Brasil tem levado especialistas a reforçar alertas sobre os riscos associados ao seu uso e a contestar a percepção de que o dispositivo seria uma alternativa menos prejudicial ao cigarro tradicional. A comparação entre os dois produtos, frequente em consultórios médicos e debates públicos, é considerada inadequada do ponto de vista científico, uma vez que ambos expõem o organismo a substâncias nocivas.
Enquanto os danos provocados pelo cigarro convencional são amplamente documentados ao longo de décadas, com associação direta a doenças cardiovasculares, respiratórias e a diversos tipos de câncer, o cigarro eletrônico apresenta um perfil de risco distinto, porém relevante. O aerossol inalado pelo usuário contém nicotina, solventes aquecidos, metais e partículas microscópicas capazes de atingir profundamente os pulmões e alcançar a corrente sanguínea, desencadeando processos inflamatórios.
Estudos e relatos clínicos indicam que o uso do vape pode comprometer os mecanismos naturais de defesa do sistema respiratório, reduzindo a capacidade de limpeza das vias aéreas e favorecendo inflamações persistentes. Em situações mais graves, já foram registrados casos de lesões pulmonares agudas em pessoas jovens e sem histórico prévio de doenças, algumas delas necessitando de internação hospitalar e suporte intensivo.
Os impactos também se estendem ao sistema cardiovascular. Tanto o cigarro tradicional quanto o eletrônico elevam a frequência cardíaca e a pressão arterial, além de promover inflamação dos vasos sanguíneos. Esses efeitos, muitas vezes silenciosos no início, contribuem para o desenvolvimento de arritmias, infarto e insuficiência cardíaca ao longo do tempo.
Outro fator de preocupação está relacionado ao padrão de consumo. Diferentemente do cigarro convencional, cujo uso tende a ocorrer em momentos específicos, o cigarro eletrônico permite exposição contínua, favorecida pela ausência de odor forte e pela facilidade de transporte. Essa característica aumenta a frequência de inalação de nicotina e outras substâncias, ampliando o risco cumulativo.
Entre adolescentes e adultos jovens, o cenário é considerado ainda mais sensível. Muitos usuários iniciam o contato com a nicotina diretamente por meio do cigarro eletrônico, sem histórico prévio de tabagismo. Especialistas destacam que o cérebro em desenvolvimento é mais vulnerável à dependência química, o que facilita a consolidação do vício em fases precoces da vida.
Do ponto de vista da saúde pública, o fato de o cigarro tradicional apresentar maior número de mortes associadas não implica menor gravidade do cigarro eletrônico. O vape é um produto mais recente, com efeitos de longo prazo ainda em investigação. Para a ciência, a ausência de combustão não elimina os danos, apenas modifica a forma de agressão ao organismo, e não há, até o momento, evidências de uma maneira segura de inalar nicotina.
Foto: Reprodução

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