Jovem de Muçum troca rotina no interior e se alista como voluntário na guerra da Ucrânia
O muçunense Miguel Rissi Picolli, de 20 anos, abandonou a rotina de aulas e trabalho no interior do Rio Grande do Sul para se juntar ao grupo de estrangeiros que recebe treinamento militar na Ucrânia. O rapaz embarcou no início de setembro e atualmente está em uma cidade próxima à fronteira com a Polônia, onde participa de exercícios voltados a voluntários que se alistam para apoiar o país em guerra contra a Rússia.
A decisão pegou a família de surpresa. Antes da viagem, Miguel disse aos pais que faria um intercâmbio em Lisboa, mas pouco depois ligou já de Varsóvia para revelar que seguiria rumo ao território ucraniano. O choque foi ainda maior porque o jovem não havia cumprido o serviço militar obrigatório no Brasil e não tinha experiência anterior em combate.
Até seis meses atrás, a vida de Miguel era marcada por rotinas simples: aulas no curso técnico de Agronegócio, na Univates, e apoio ao pai em atividades rurais. Segundo os pais, nos últimos tempos ele passou a se isolar, virando noites em frente ao computador, estudando livros e documentos sobre guerras e geopolítica. Esse interesse, até então discreto, se transformou em decisão quando buscou informações sobre a Legião Internacional, grupo que recruta combatentes de diversos países.
Na Ucrânia, sua rotina começa cedo, com corridas, marchas de até 20 quilômetros carregando equipamentos pesados, treinamentos de tiro e regras severas de disciplina. Os alojamentos coletivos reúnem pessoas de diferentes nacionalidades, entre elas brasileiros, colombianos, venezuelanos, franceses e japoneses. Erros de qualquer integrante resultam em punições para todo o grupo, como corridas e exercícios de resistência.
O contrato assinado prevê remuneração inicial de US$ 550, valor que pode subir a US$ 4,8 mil caso o voluntário seja enviado à linha de frente. Há ainda a previsão de indenização às famílias em caso de morte, estimada em US$ 360 mil. Miguel afirma, no entanto, que a decisão não foi motivada pelo dinheiro, mas pela oportunidade de viver a experiência da guerra.
Para os pais, resta a preocupação constante. A mãe, servidora pública, relata que mantém contato diário por mensagens e videochamadas, sempre perguntando sobre alimentação e segurança. O pai, agricultor, admite a dificuldade em aceitar a escolha: “Queremos que volte para casa. O futuro, ele que decida. Mas hoje, nossa maior esperança é revê-lo com vida”.
O Itamaraty estima que cerca de cem brasileiros já tenham tentado se alistar no conflito desde 2022. Nove morreram e 17 permanecem desaparecidos. A permanência de Miguel no país europeu deve se estender por, pelo menos, seis meses, período previsto para a conclusão do treinamento militar antes de eventual deslocamento ao front.
Foto: Arquivo Pessoal

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