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Paixão de Cristo de Muçum reúne mais de sete mil pessoas e encerra edição marcada por inovação e emoção

 

Encenação ampliada para dois dias consolida evento como uma das maiores manifestações culturais e religiosas do Vale do Taquari

A encenação da Paixão de Cristo de Muçum encerrou mais uma edição com forte participação popular e avaliação positiva do público e da organização. Realizado na Sexta-feira Santa e no Sábado Santo, dias 3 e 4 de abril, na Praça da Matriz, o espetáculo reuniu mais de sete mil pessoas nas duas noites, reafirmando-se como uma das principais manifestações culturais e religiosas do Vale do Taquari.

Promovido pela Associação Muçunense de Artes (AMA), o evento teve como principal novidade a ampliação para dois dias de apresentação, uma demanda antiga que buscava oportunizar maior participação do público regional. A mudança permitiu uma melhor distribuição do público entre as noites, com destaque para a sexta-feira, que concentrou grande presença na Praça da Matriz.

Neste ano, a peça passou por uma reformulação significativa em sua narrativa. A abertura trouxe uma inversão cronológica, iniciando com a entrega do corpo de Jesus a Maria, em uma cena de forte impacto emocional. Na sequência, o espetáculo retorna ao início da trajetória de Cristo, conduzindo o público pelos principais momentos da história bíblica até a ressurreição.

Entre as passagens encenadas estiveram a cura da mulher, a oração do Pai Nosso, a Santa Ceia, o Monte das Oliveiras, o interrogatório no Sinédrio, o julgamento diante de Pilatos, a ida a Herodes, além da traição e morte de Judas, apresentada de forma simbólica e impactante. A flagelação e a crucificação também ganharam nova abordagem estética, contribuindo para intensificar a experiência do público.

O espetáculo incorporou ainda cenas inéditas, ampliando a conexão com a comunidade e valorizando o elenco. Um dos destaques foi a cena das mulheres no rio, que mesclou referências bíblicas com elementos da cultura local, resgatando práticas antigas do interior de Muçum. Outro momento inserido foi o do carpinteiro, que dialoga com crianças sobre o ofício de José e de Jesus, aproximando a narrativa do cotidiano.

A Via Dolorosa seguiu com intensidade, incluindo o encontro com Maria, a ajuda de Simão de Cirene, o gesto de Verônica, as quedas de Jesus e o encontro com as mulheres de Jerusalém. A crucificação ocorreu em um novo espaço cênico, que proporcionou forte impacto visual, enquanto a ressurreição apresentou variações entre os dois dias, mantendo a essência da proposta e surpreendendo o público.

Para o diretor da encenação e presidente da AMA, Ranieri Zilio Moriggi, o resultado reflete o amadurecimento do projeto ao longo dos anos. “Conseguimos apresentar uma peça renovada, sem perder a essência da história. A cada ano buscamos evoluir, mantendo o respeito ao contexto bíblico, que é o mais importante. O retorno do público mostra que estamos no caminho certo”, avalia.

Outro ponto de destaque foi a qualidade técnica da produção. A sonorização e a iluminação tiveram papel fundamental na construção da narrativa, contribuindo diretamente para a ambientação das cenas. “As cores, os efeitos e a sensibilidade da equipe fizeram toda a diferença. Foi um trabalho impecável, que ajudou a contar a história de uma forma única”, destaca Moriggi, referindo-se ao trabalho da Status Sonorização e do iluminador Sedenir Basso.

A força do espetáculo também se reflete na trajetória de quem o constrói. O vice-presidente da AMA e intérprete de Pôncio Pilatos, Renan Lucas Nardin, destacou a continuidade do projeto ao longo dos anos. “Estar aqui desde 2002 e ver onde chegamos é muito significativo. Cada edição é um desafio, mas também uma confirmação de que vale a pena continuar. É um trabalho coletivo, construído com muita dedicação”, afirma.

Entre os relatos dos participantes, a experiência vivida em cena aparece como um dos principais diferenciais da encenação. Para Ismael Girardi, que interpretou Jesus Cristo pela primeira vez, o papel trouxe uma vivência profunda. “Representar Jesus não foi só atuar, foi sentir algo que foi muito além de mim. Entrei em cena carregando uma história de dor, mas principalmente de amor, tentando fazer com que isso chegasse de verdade em cada pessoa que estava ali. Em cada momento, o meu desejo foi tocar o coração de alguém e dar um novo sentido para essa mensagem”, relata.

A interpretação de Maria, vivida há quase uma década por Fabiana Todescato Bagnara, também reforça a dimensão emocional do espetáculo. “Participar da encenação da Paixão de Cristo é uma experiência emocionante e transformadora. Cada cena carrega uma intensidade que me faz refletir sobre o amor, a fé e a esperança. Não é apenas uma apresentação, mas um encontro espiritual que me fortalece e me conecta com essa história”, destaca.

Para Mariele Agostini, rainha do município e intérprete de Herodíade, o sentimento é de pertencimento. “É algo que conversa com a nossa alma e nos conecta com a fé. Com o tempo, nos tornamos uma família que se apoia e cresce junto. Fazer parte disso é viver algo construído pela própria comunidade, que marca gerações”, afirma.

Já Cleber Pasqualetto, integrante da AMA, que interpretou Abenader nas duas noites e Judas Iscariotes no sábado, ressalta a intensidade dos personagens. “São papéis que exigem entrega emocional e responsabilidade. Este ano conseguimos dar uma profundidade maior às cenas, e isso foi percebido pelo público”, avalia.

Entre os personagens de maior impacto, o demônio também se destaca pela força em cena. Para Rafaela Dalmolin Picolli, a experiência exige sensibilidade. “É um papel que provoca e inquieta, mas que também leva o público à reflexão. Interpretar isso é intenso e transformador”, afirma.

A dimensão espiritual também é ressaltada por Tatiane Nunes Baldo, intérprete de Maria de Cléofas. “É uma experiência que transcende o palco e toca profundamente a alma. Cada gesto carrega emoção verdadeira e nos conduz a uma reflexão sobre fé, amizade e renovação espiritual”, destaca.

O apoio institucional também foi fundamental para a realização do espetáculo. O prefeito de Muçum, Amarildo Baldasso, que integra o elenco como sacerdote do templo, destacou a importância da parceria. “É emocionante fazer parte dessa encenação. Como gestor, temos o compromisso de apoiar iniciativas como essa, inclusive com recursos, para que o espetáculo aconteça da forma que foi planejado. A Prefeitura sempre será parceira da AMA”, afirma.

Encerrada a edição de 2026, a diretoria da AMA projeta os próximos passos. O momento agora é de pausa, avaliação e planejamento. “Vamos analisar o que deu certo, o que pode melhorar e aquilo que não saiu como planejado. É tempo de celebrar e, depois, pensar nos próximos projetos”, destaca Moriggi. Entre as possibilidades está a retomada do espetáculo de Natal, tema que deve ser debatido ao longo do segundo semestre.

Ficha técnica da encenação

Texto e Direção Geral: Ranieri Zilio Moriggi

Revisão do Roteiro: Padre Paulo Krindges

Coordenação Artística: Bruna Luzzi Brino e Letícia Primon Nardin

Figurinos: Dolores Cornelli dos Santos e Neusa Zilio Moriggi

Cenografia: Cleber Pasqualetto, Jueremir Paliosa, Renan Nardin, Cristian Rodrigues e Silvio Giacomolli

Som e Luz: Status Sonorização

Iluminação: Sedenir Basso

Foto: Edson Gomes Photo / Divulgação

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