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Malha Sul entra na lista de concessões federais para 2026, mas divisão da ferrovia e retirada de trilhos geram tensão no RS

 

Governo prevê aporte de até R$ 2 bilhões para viabilizar trecho gaúcho, enquanto lideranças regionais alertam para risco de desmonte da malha

A Malha Sul finalmente retorna ao eixo central das discussões logísticas do país. A nova Política Nacional de Outorgas Ferroviárias, publicada no Diário Oficial da União, confirma que o governo federal vai incluir o sistema ferroviário do Sul no pacote de concessões previsto para 2026. Mas, junto com o anúncio, crescem as preocupações no Rio Grande do Sul sobre o fatiamento do projeto e a retirada de trilhos em trechos desativados.

O Ministério dos Transportes projeta publicar os editais na metade de 2026 e realizar o leilão em dezembro. Pela primeira vez, o governo admite que será necessário aporte público de até R$ 2 bilhões para tornar competitiva a operação no RS, considerada a mais vulnerável em comparação aos trechos do Paraná e de Santa Catarina.

A proposta divide a Malha Sul em três corredores, um para cada estado, e estabelece investimentos estimados em R$ 12 bilhões ao longo dos mais de 6 mil quilômetros de trilhos. O objetivo é atrair operadoras privadas com capacidade de modernização, aquisição de material rodante e recuperação de trechos danificados, especialmente após as enchentes de 2023 e de maio de 2024.

Trecho gaúcho preocupa por risco de abandono

O estudo preliminar apresentado ao governo federal delimita um corredor ferroviário de cerca de 880 quilômetros, conectando o Norte e o Oeste do RS ao porto de Rio Grande. A região tem forte demanda agrícola e industrial, mas sofre com décadas de subutilização, sucateamento e descontinuidade de investimentos.

Dentro do governo estadual, o grupo de trabalho coordenado pelo vice-governador Gabriel Souza demonstra preocupação com o formato proposto. A avaliação é de que o fatiamento pode comprometer a competitividade do trecho gaúcho, já que operadores tendem a priorizar corredores mais rentáveis — caso do Paraná, que concentra 80% do volume de cargas nos portos de Paranaguá e São Francisco do Sul.

Lideranças empresariais e regionais também reforçam o alerta. Mobilizadas pela Federasul, entidades do interior temem que o novo modelo acabe por consolidar a perda de relevância da ferrovia no Rio Grande do Sul.

Retirada de trilhos acende alerta

O debate ganha ainda mais urgência após a constatação de que a concessionária Rumo Logística vem removendo trilhos de trechos desativados e enviando-os para outros estados. A empresa alega ter autorização contratual, mas a movimentação virou alvo de investigação do Ministério Público Federal.

A Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) notificou formalmente a concessionária, determinando que qualquer deslocamento de estruturas ocorra exclusivamente dentro do território gaúcho, sob risco de ilegalidade. “A ferrovia é patrimônio da União. Qualquer desativação definitiva exige processo formal e deliberação da diretoria da ANTT”, alerta Rafael Fontana, presidente da Amturvales.

A resolução ANTT 5.945/2021 também é clara: para desmontes definitivos, é necessária análise técnica, comunicação aos municípios afetados e publicação de portaria específica — o que, até o momento, não aconteceu.

Governo diz que modelo pode ser revisado

O secretário nacional de Transporte Ferroviário, Leonardo Cezar Ribeiro, reconheceu o problema em entrevista recente e disse que o governo acompanha o caso. Ele também afirmou que o fatiamento da Malha Sul não é definitivo e que o modelo poderá ser ajustado após as audiências públicas.

Segundo Ribeiro, os estudos finais da concessão serão entregues em janeiro de 2026, seguidos de consultas públicas e road shows com investidores. Só então o projeto será submetido ao Tribunal de Contas da União (TCU) e levado à B3 para leilão.

O secretário destacou que o trecho gaúcho deverá receber aporte público significativo para equilibrar o fluxo de caixa da futura concessionária, garantindo viabilidade econômica e competitividade frente aos demais corredores.

O que fica pendente para 2026

  • Definição final do modelo: três lotes independentes ou um bloco integrado

  • Volume definitivo do aporte público

  • Condições de outorga e metas de modernização

  • Responsabilidades da União e da concessionária na recomposição de trechos destruídos pelas enchentes

  • Decisão sobre o destino dos trilhos removidos pela atual operadora

Apesar das incertezas, o governo federal afirma estar “muito otimista” quanto ao interesse do mercado. Já no Rio Grande do Sul, a sensação predominante é de cautela: enquanto a Malha Sul entra novamente no radar nacional, líderes e entidades cobram garantias de que o Estado não ficará, mais uma vez, no fim da linha.

Foto: Grupo Aventureiros TPS / Divulgação

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