Previsões para o Vale do Taquari voltam a ser colocadas à prova após erros na última cheia
Governo mantém avaliação de baixo risco para a bacia Taquari-Antas, mas moradores e municípios têm motivos para cobrar mais precisão e transparência dos modelos depois das falhas registradas na semana passada
O governo do Rio Grande do Sul afirma que o Vale do Taquari permanece, neste momento, em uma condição de baixo risco hidrológico. A previsão, porém, chega cercada de desconfiança na região após o sistema de monitoramento ter subestimado a evolução da cheia registrada na semana passada. O próprio coordenador estadual da Defesa Civil, Luciano Boeira, reconheceu posteriormente que os modelos hidrológicos subestimaram a resposta dos rios diante do volume de chuva observado.
O episódio anterior não pode ser tratado apenas como mais uma dificuldade inerente à previsão meteorológica. Quando uma projeção equivocada antecede uma enchente, o problema deixa de ser exclusivamente técnico: prefeitos precisam decidir quando retirar moradores, empresas precisam proteger equipamentos e estoques e famílias precisam escolher entre permanecer ou deixar suas casas. A margem para erro existe, mas a população precisa saber qual é o grau de incerteza e o que está sendo feito para reduzi-lo.
A nova previsão do Estado indica chuva até 10 de agosto e reconhece que ainda existem divergências entre os modelos sobre onde serão registrados os maiores volumes.
É justamente nesse ponto que surge uma questão importante para o Vale: quanto peso está sendo dado à chuva nas cabeceiras e nas nascentes dos rios que formam o Taquari-Antas?
Na semana passada, a própria Defesa Civil informou que os volumes observados nas áreas de cabeceira superaram as projeções. O órgão trabalhava com limiares de chuva de até 150 milímetros, enquanto foram registrados cerca de 200 milímetros. Além disso, a resposta hidrológica dos rios foi superior àquela indicada pelos modelos.
Ou seja, não basta observar o que está acontecendo na cidade que já está sofrendo com a água. Quando se trata de uma bacia de resposta rápida como a Taquari-Antas, o que acontece rio acima pode determinar o que ocorrerá horas depois rio abaixo.
E esse é um dos pontos que merecem explicação pública mais detalhada do governo: quais dados das cabeceiras estão sendo incorporados aos modelos, com que frequência são atualizados e como as informações são transformadas em alertas para os municípios?
O problema não é errar. É repetir o erro sem explicar o que mudou
A própria Defesa Civil estadual reconhece que previsões são sujeitas a alterações. No portal oficial, o órgão ressalta que avisos e alertas são previsões e podem ou não se confirmar.
Isso é tecnicamente compreensível. O que não pode ser compreensível para quem vive em área de inundação é receber sucessivas projeções sem uma explicação suficientemente clara sobre o que mudou entre uma previsão e outra.
Na cheia anterior, a evolução foi rápida. O Estado chegou a emitir alertas de risco muito alto para diferentes municípios do Vale, incluindo Muçum, Encantado, Santa Tereza e Estrela.
Depois de uma experiência dessas, afirmar simplesmente que os modelos continuam sendo aperfeiçoados é insuficiente. É preciso demonstrar como estão sendo aperfeiçoados.
Governo fala em evolução, mas população quer resultado
Durante a apresentação das novas projeções, Eduardo Leite afirmou que o Estado está avançando na preparação para eventos extremos e que a estratégia passa por aumentar a capacidade de resposta e reduzir os impactos.
O coordenador da Defesa Civil também sustenta que a estrutura estadual foi ampliada desde 2024 e que atualmente o órgão possui mais equipes e capacidade operacional.
O discurso, entretanto, precisa ser confrontado com a experiência de quem está no território.
O Vale do Taquari não está começando a lidar com enchentes agora. Desde 2023, moradores, empresas e municípios convivem com sucessivos episódios de inundação. Portanto, cada nova previsão é também um teste da capacidade adquirida depois das tragédias anteriores.
O governo informa que oito municípios receberam mapas oficiais de manchas de inundação durante o episódio da semana passada, justamente para auxiliar gestores na tomada de decisões preventivas.
É uma ferramenta importante. Mas mapa de inundação, alerta no celular e equipe mobilizada não substituem a necessidade de acertar, ou, quando não for possível acertar, comunicar claramente a incerteza e trabalhar com cenários de segurança.
A previsão apresentada pelo Estado aponta que a chuva mais significativa pode voltar a atingir diferentes áreas do Rio Grande do Sul nos próximos dias. Entre sexta-feira e segunda-feira, os próprios meteorologistas admitem divergências entre os modelos quanto à localização dos maiores acumulados.
Para o Vale, portanto, o baixo risco indicado hoje não deveria ser interpretado como uma garantia de que nada acontecerá.
A própria Defesa Civil reconhece que os modelos podem mudar conforme novos dados chegam.
E é justamente aí que está a responsabilidade do poder público: não vender tranquilidade quando o cenário ainda é incerto.
Foto: Vitor Rosa / Ascom

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