Pesquisa aponta que compra de votos ainda alcança milhões de brasileiros e maioria não sabe como denunciar
Uma pesquisa inédita do instituto Ipsos-Ipec revelou que a prática de compra de votos ainda faz parte da realidade eleitoral brasileira. Segundo o levantamento, divulgado pelo Movimento de Combate à Corrupção Eleitoral (MCCE), 22% dos brasileiros afirmaram já ter recebido algum tipo de oferta em troca do voto durante períodos eleitorais. O estudo também aponta que a maior parte da população desconhece os canais de denúncia e não se sente segura para relatar esse tipo de crime.
De acordo com os dados, as eleições municipais concentram o maior número de abordagens. Entre os entrevistados que disseram já ter sido alvo desse tipo de prática, 59% citaram candidatos a vereador como responsáveis pelas ofertas, enquanto 43% mencionaram disputas para prefeito.
A pesquisa também mostrou que a percepção sobre a frequência dessas situações é elevada. Mesmo entre pessoas que nunca receberam propostas diretamente, 39% acreditam que a compra de votos acontece “sempre” em suas cidades. Somados aos que responderam “frequentemente” ou “às vezes”, o índice chega a 69%.
Além do dinheiro em espécie, o estudo chama atenção para outras formas de cooptação eleitoral que ainda não são reconhecidas por grande parte da população como crime. A oferta de consultas médicas, facilitação de benefícios sociais, distribuição de alimentos, festas ou favores pessoais aparece como prática recorrente em diferentes regiões do país.
A socióloga Adelia Franceschini, consultora da pesquisa, observa que muitas dessas ações ainda são vistas como ajuda ou benefício individual, e não como uma tentativa ilegal de influenciar o eleitor. Segundo ela, isso contribui para a naturalização do problema.
O levantamento mostra ainda diferenças regionais importantes. O Nordeste lidera os registros de pessoas que afirmaram já ter recebido proposta para vender o voto, com índice de 32%, acima da média nacional. No Sudeste, o percentual foi de 18%.
Outro dado considerado preocupante é a dificuldade de denúncia. Conforme a pesquisa, 62% dos entrevistados não sabem como comunicar casos de compra de votos às autoridades. Já 52% afirmam não se sentir seguros para formalizar denúncias.
O Movimento de Combate à Corrupção Eleitoral lançou a campanha “Voto não tem preço, tem consequências”, buscando ampliar a conscientização da população e incentivar denúncias. Atualmente, as ocorrências podem ser registradas por meio do aplicativo Pardal, da Justiça Eleitoral e do Ministério Público, além de delegacias e promotorias.
Pela legislação brasileira, a compra de votos é enquadrada como “captação ilícita de sufrágio”. A prática inclui oferecer dinheiro, bens, empregos, vantagens ou benefícios em troca de apoio eleitoral, podendo resultar em pena de até quatro anos de prisão, além de sanções eleitorais.
A pesquisa foi realizada entre os dias 4 e 8 de dezembro de 2025, com duas mil entrevistas em 131 municípios brasileiros. A margem de erro é de dois pontos percentuais, com nível de confiança de 95%.
Foto: Freepik / Reprodução

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