Pedro Ortaça morre aos 83 anos e deixa legado histórico na música missioneira gaúcha
A música regionalista do Rio Grande do Sul perdeu nesta sexta-feira, 29, uma de suas vozes mais emblemáticas. Morreu, aos 83 anos, o cantor e compositor Pedro Ortaça, considerado o último representante vivo dos chamados Troncos Missioneiros, grupo que marcou profundamente a identidade cultural gaúcha a partir da década de 1970.
O artista faleceu em Ijuí, no Noroeste do Estado, após complicações de saúde agravadas nos últimos meses. Conforme informações da família, Ortaça sofreu uma parada cardiorrespiratória durante a madrugada e não resistiu. Ele havia passado recentemente por uma cirurgia de amputação de uma das pernas. No ano passado, já havia enfrentado outro procedimento semelhante.
Nos últimos anos, o cantor conviveu com uma série de problemas de saúde, incluindo internações frequentes para tratamento de pneumonia, além de complicações cardíacas e renais. Desde março deste ano, residia em Ijuí ao lado da família para realizar sessões de diálise. Em janeiro, esteve hospitalizado devido a um quadro de edema pulmonar.
Pedro Ortaça deixa a esposa, Rose, os filhos Gabriel, Marianita e Alberto, além de netos. O velório ocorrerá em Ijuí, com uma cerimônia também prevista em São Luiz Gonzaga, município missioneiro onde nasceu e construiu grande parte de sua trajetória artística.
Dono de um repertório marcado pela valorização da cultura gaúcha e das raízes missioneiras, Ortaça eternizou canções como Timbre de Galo, Bailanta do Tibúrcio e Queixo Duro. Sua obra ajudou a consolidar uma nova forma de interpretar o regionalismo, aliando tradição, identidade popular e crítica social.
Ao lado de Noel Guarany, Cenair Maicá e Jayme Caetano Braun, integrou os chamados Troncos Missioneiros, denominação surgida a partir de um disco lançado em 1988, mas que representava uma parceria artística e ideológica construída muito antes. Juntos, os quatro artistas deram voz às vivências do homem do interior, às questões sociais e à memória histórica do povo gaúcho.
Nascido em 29 de junho de 1942, no distrito de Pontão de Santa Maria, em São Luiz Gonzaga, Pedro Ortaça cresceu em meio à música e ao trabalho rural. O contato com as tradições começou cedo, influenciado pelo avô gaiteiro e pelas reuniões comunitárias do interior, que mais tarde inspirariam algumas de suas composições mais conhecidas.
Ainda jovem, trabalhou em lavouras de arroz em São Borja, experiência que ampliou seu contato com diferentes culturas e histórias do interior gaúcho. Foi nesse ambiente que começou a desenvolver sua identidade artística, inicialmente sem pretensão profissional, mas já demonstrando forte ligação com a música popular regional.
Além da carreira musical, Ortaça também teve atuação na comunicação, apresentando programas de rádio voltados à cultura gaúcha. Ao longo da trajetória, recebeu importantes homenagens e reconhecimentos, como o Prêmio Vitor Mateus Teixeira, a Medalha do Mérito Farroupilha e o título de Mestre das Culturas Populares Brasileiras concedido pelo Ministério da Cultura.
Nos últimos anos, sua contribuição voltou a ser celebrada em diferentes espaços culturais. Em 2024, foi escolhido patrono dos Festejos Farroupilhas. Já em abril deste ano, recebeu o título de doutor honoris causa da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), reconhecimento pelo impacto cultural e histórico de sua obra.
Mesmo diante das limitações de saúde, Pedro Ortaça manteve-se ligado à música até os últimos meses de vida. Em agosto do ano passado, lançou a canção Pena Guarany, em parceria com o filho Gabriel, homenageando os 400 anos das Missões Jesuíticas.
Foto: Clio Luconi / Divulgação

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