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Artigo - Três anos depois e muitas perguntas…

 




Hoje, 4 de setembro, Muçum para por alguns instantes para lembrar. Há três anos, a primeira grande enchente transformava para sempre a história da nossa cidade. Levou casas, empresas, sonhos, histórias e, acima de tudo, levou vidas.

Eu não consigo falar daquela tragédia sem falar da minha própria família. Perdi quatro familiares. E um deles, o tio “Clídio”, irmão do meu avô materno, lá da comunidade de Linha Alegre, nós nunca conseguimos localizar. Não tivemos a oportunidade de encontrar seu corpo, de realizar um enterro digno, de nos despedirmos. Ficou uma ausência que não termina, uma pergunta sem resposta e um luto que, de certa forma, nunca conseguiu começar e terminar como deveria.

Mas três anos depois, além da saudade, existe outra coisa que precisa ser dita: o que foi feito para que Muçum pudesse seguir em frente? O que foi feito para diminuir o trauma de quem ficou? Para tratar o medo de quem ainda acorda assustado quando a chuva aperta? Para devolver segurança a quem olha para o rio com preocupação? O que foi feito para convencer as pessoas de que ainda existe futuro aqui?

Convenhamos que, reconstruir uma cidade não é apenas reconstruir paredes. É reconstruir confiança. É devolver perspectiva. É fazer com que uma família queira permanecer. É fazer com que um jovem consiga imaginar sua vida aqui. É fazer com que um empresário volte a acreditar que vale a pena investir. É criar condições para que quem foi embora um dia queira voltar.

SÓ DE DISCURSO, A DOR NÃO AMENIZA. O MEDO NÃO DESAPARECE. E A CIDADE NÃO CRESCE.

Não basta lembrar a tragédia uma vez por ano. Não basta uma publicação bonita, uma homenagem, um vídeo com música triste e imagens da enchente. Isso pode registrar a memória, e a memória é importante. Mas memória sem ação vira apenas lembrança.

Três anos depois, precisamos perguntar o que mudou de verdade.

O que foi feito para proteger as pessoas? O que foi feito para gerar emprego? O que foi feito para trazer empresas? O que foi feito para ocupar novamente os prédios vazios? O que foi feito para recuperar a economia? O que foi feito para cuidar de quem ficou? E, principalmente, o que está sendo planejado para que Muçum não perca ainda mais gente?

Porque é doloroso chegar à cidade e perceber que muita gente que amamos simplesmente não está mais aqui.

Como eu queria chegar em Muçum e reencontrar tanta gente que foi embora. Pessoas que fizeram parte da minha, da nossa história, que ajudaram a construir a cidade, mas que hoje não conseguem mais enxergar uma perspectiva para permanecer. Como eu queria olhar para Muçum e enxergar um rumo diferente.

E isso não é politicagem. É só caminhar pelas ruas durante o dia.

A cidade pode estar limpa. Pode estar organizada. Mas também é preciso olhar para as portas fechadas. Para os prédios com placas de “vende-se” e “aluga-se”. Para os imóveis que ainda carregam marcas da enchente. Para os negócios que não reabriram. Para as famílias que partiram.

Uma cidade não pode ser medida apenas pela aparência de suas ruas. Ela precisa ser medida pela esperança de quem vive nela. E é justamente aí que está a nossa maior preocupação. Porque uma enchente pode destruir uma cidade em poucas horas. Mas a falta de perspectiva pode destruí-la lentamente, durante anos.

Hoje, três anos depois, eu não quero apenas lembrar quem perdemos. Quero lembrar também o que Muçum poderia ter sido e ainda pode ser.

Tenho carinho demais por essa cidade para aceitar que a nossa história seja resumida à tragédia. Tenho amor demais pelas pessoas que ficaram para simplesmente assistir ao tempo passar. E tenho saudade demais de quem foi embora para não desejar que um dia essas pessoas possam olhar novamente para Muçum e encontrar motivos para voltar.

Não precisamos de mais discursos sobre reconstrução. Precisamos de uma cidade reconstruída naquilo que realmente importa: segurança, trabalho, oportunidades, esperança e futuro.

A água levou muito de nós há três anos. Não podemos permitir que a falta de perspectiva leve o que ainda nos resta. Porque Muçum não precisa apenas sobreviver à próxima enchente. Muçum precisa voltar a ter motivos para viver.

Por Ranieri Zilio Moriggi - Jornalista e Diretor do Portal de Notícias Acontece no Vale

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